Formulando Palavras

bárbaro

adjetivo e substantivo masculinoGregoOrigem certa

Do grego bárbaros, uma onomatopeia: era o “bar-bar-bar” que os gregos ouviam na fala de quem não falava grego. O estrangeiro virou selvagem e, no Brasil, ainda virou elogio: “que bárbaro!”.

O caminho

  1. βάρβαροςGregoestrangeiro, quem não fala grego
  2. barbarusLatimestrangeiro; rude, selvagem
  3. bárbaroPortuguêsselvagem, cruel; e, no Brasil, ótimo

Como a palavra se formou

bárbaros, provavelmente uma reduplicação onomatopaica (bar-bar) que imitava uma fala estrangeira incompreensível; pelo latim barbarus

βαρ-βαρbar-bar: o som da fala estrangeira, repetido

A história

No gringo, o grego era a língua que ninguém entendia. Aqui a história é a do outro lado do balcão. Para os gregos, quem não falava grego era bárbaros, e a palavra é uma onomatopeia: imitava o “bar-bar-bar” que eles ouviam na boca dos estrangeiros, uma fala que soava como um blá-blá-blá sem sentido. A primeira aparição está na Ilíada, de Homero, que chama os cários de barbaróphōnoi, “de fala bárbara”, ou seja, de fala estrangeira.

No começo, bárbaro não era xingamento: queria dizer só “não grego”. Até os romanos entravam na conta, e eles sabiam disso. O comediógrafo Plauto, ao adaptar peças gregas para o latim, dizia que as tinha vertido barbare, “para a língua bárbara”. Com o tempo, porém, a palavra foi azedando. Os romanos herdaram o barbarus e passaram a usá-lo para os povos de fora das fronteiras do Império, e o estrangeiro foi virando o rude, o selvagem, o cruel.

A gramática também ficou com a palavra. Na Antiguidade, barbarismo era usar mal a língua, como um estrangeiro faria; até hoje, nas aulas de português, o barbarismo é um vício de linguagem: escrever, pronunciar ou flexionar uma palavra de forma errada, como dizer “rúbrica” no lugar de “rubrica”. É o bar-bar-bar dentro da nossa própria língua.

E o Brasil deu à palavra uma última reviravolta. Por aqui, bárbaro também virou elogio: “que bárbaro!”, “foi um show bárbaro”. É o mesmo caminho do incrível: de tanto servir de exagero, a palavra perdeu o susto e ficou só com o espanto. E, no Sul, “barbaridade!” serve para quase tudo, do assombro à indignação.

No fim das contas, bárbaro começou como um som e virou um julgamento. Vale lembrar que, para quem fala outra língua, o nosso português também deve soar como bar-bar-bar.

O sentido hoje

Estrangeiro, para os gregos e romanos; depois, rude, selvagem, cruel (“um crime bárbaro”). No Brasil, também elogio: extraordinário, ótimo (“foi um show bárbaro!”).

Mito e fato

O que se diz

Bárbaro viria de barba: os povos bárbaros seriam chamados assim por serem barbudos.

O que as fontes dizem

Bárbaro vem do grego bárbaros, uma onomatopeia ligada à fala incompreensível dos estrangeiros. A barba (do latim barba) não tem nada a ver com a história; a semelhança é só de som.

Da mesma família

  • barbaridade
  • barbarismo
  • barbárie
  • barbarizar

Fontes

  1. HOMERO. Ilíada, canto II, verso 867 (os cários “de fala bárbara”).
  2. PLAUTO. Trinummus, prólogo, verso 19 (“Plautus vortit barbare”).
  3. PETROPOULOS, I. Desconstruindo o conceito de bárbaro com a ajuda de Kaváfis. Το Ελληνικό Βλέμμα: Revista de Estudos Helênicos da UERJ, n. 3. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/ellinikovlemma/article/download/33684/23848/112184.
  4. HARPER, D. Barbarian. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/barbarian.