Formulando Palavras

gringo

substantivo masculino e adjetivoEspanholOrigem provável

Do espanhol gringo, que, pela hipótese mais influente, vem de griego, “grego”: a língua que ninguém entendia acabou dando nome a quem vem de fora. Do grego Graikós ao latim Graecus, a palavra trocou de forma e de sentido até chegar aqui.

Verbete escrito por Gustavo Clevelares, doutor em Literatura e professor da UFCIRJ, colaborador do Formulando Palavras.

O caminho

  1. ΓραικόςGregodenominação dos gregos
  2. GraecusLatimgrego
  3. griegoEspanholgrego
  4. *grigoEspanholforma intermediária (hipótese)
  5. gringoEspanholestrangeiro de fala difícil de entenderséc. XVIII
  6. gringoPortuguêsestrangeiro

Como a palavra se formou

do espanhol gringo, provavelmente de griego, “grego”, pelo latim Graecus e pelo grego Graikós; na hipótese mais influente, griego > grigo (síncope) > gringo (epêntese nasal)

griego“grego”, em espanhol: a língua que ninguém entendia

A história

Muito provavelmente você já chamou algum estrangeiro de gringo, ou ao menos já ouviu alguém usar essa palavra. O que talvez você não saiba é que ela pode ter nascido de uma associação entre o grego e aquilo que ninguém conseguia entender. Antes de ser o estrangeiro, o gringo foi, por assim dizer, quem falava grego.

A explicação etimológica mais conhecida liga gringo ao espanhol griego, “grego”. Mas o que uma pessoa da Grécia tem a ver com um estrangeiro qualquer? A resposta está na fama antiga da língua grega. Na tradição medieval, o grego era tido como difícil, incompreensível para quem não o conhecia, e os copistas chegavam a anotar: Graecum est; non potest legi, “está em grego; não se pode ler”. É o mesmo espírito da nossa pergunta “está falando grego?”, quando não entendemos absolutamente nada.

O curioso é que os próprios gregos já tinham feito isso com os outros. Para eles, quem não falava grego era bárbaros: a palavra imitava o “bar-bar-bar” que eles ouviam na boca dos estrangeiros, uma fala que soava como um blá-blá-blá sem sentido. O latim herdou o barbarus, e daí vem o nosso bárbaro, que com o tempo passou de “estrangeiro” a “selvagem, rude”. Bárbaro e gringo nasceram do mesmo jeito: o estrangeiro é aquele cuja língua a gente não entende. A diferença é de lado: no bárbaro, quem não se entendia eram os outros; no gringo, quem ficou incompreensível foi o próprio grego. O feitiço virou contra o feiticeiro. Mas a história do bárbaro é longa, cheia de barbas e de barbaridades, e merece um verbete só para ela.

E como griego virou gringo? Segundo uma das hipóteses, por dois tropeços fonéticos. Primeiro, uma síncope, isto é, a queda de um fonema no interior da palavra: griego virou grigo. Depois, uma epêntese nasal, a inserção de um /n/ que ninguém tinha pedido: grigo virou gringo. A origem ainda é discutida entre os estudiosos, mas essa é a hipótese mais influente.

Um dos registros mais conhecidos está no Diccionario castellano, de Esteban de Terreros y Pando, publicado em 1787. Em Málaga, chamavam de gringos os estrangeiros cujo sotaque atrapalhava a compreensão do espanhol; em Madri, o apelido ia principalmente para os irlandeses. Perceba que, no início, a palavra não apontava uma nacionalidade, e sim um jeito de falar: gringo era quem chegava de fora e parecia não dominar a língua local.

Com o tempo, o termo atravessou o Atlântico. No México, passou a designar principalmente os norte-americanos; em outros países, estrangeiros de várias origens. No Brasil, ficou com o sentido mais amplo de todos: gringo é qualquer pessoa de fora. Até um grego, o que, convenhamos, fecha o círculo com elegância.

O sentido hoje

Pessoa estrangeira. No Brasil, consolidou-se com esse sentido amplo; no México, associa-se principalmente aos norte-americanos.

Mito e fato

O que se diz

Segundo uma versão bastante conhecida, durante a guerra entre México e Estados Unidos, no século XIX, os mexicanos, indignados com a presença dos invasores de uniforme verde, gritariam “Green, go home!”, algo como “Verdes, vão para casa!”; com o passar do tempo, a expressão teria sido encurtada e adaptada até virar gringo. Há ainda uma versão que relaciona a palavra à canção “Green Grow the Rushes, O”, supostamente cantada pelos soldados americanos: os mexicanos, sem compreender a letra, teriam usado as primeiras palavras da música para apelidar os estrangeiros.

O que as fontes dizem

Nenhuma dessas histórias se sustenta. Gringo já aparecia em registros espanhóis no século XVIII, quase cem anos antes da guerra entre México e Estados Unidos (1846–1848). E, para completar, os uniformes das tropas americanas naquele conflito nem eram verdes.

Da mesma família

  • grego

Fontes

  1. BLANCHETTE, T. G. Gringaidas: notas sobre a etimologia de ‘gringo’. Brazilian Journal of Latin American Studies, São Paulo, 2024.
  2. RATIER, R. Por que estrangeiros são chamados de “gringos”? Superinteressante, 30 jun. 2002.
  3. RODRIGUES, S. Gringo vem de “green, go home”, certo? Errado. Veja, 27 nov. 2013. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/sobre-palavras/gringo-vem-de-8216-green-go-home-8217-certo-errado/. Acesso em: 3 nov. 2026.
  4. HARPER, D. Gringo: etymology, origin and meaning. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/gringo.