Como a palavra se formou
pupilla, diminutivo de pupa, “menina, boneca”: ao pé da letra, “menininha, bonequinha”
A história
Na língua mais badalada, a.k.a. latim, menino era puer, e daí vem o nosso adjetivo pueril. Menina era puella, mas havia também pupa, com sentido de bonequinha, menininha. Essa é uma das minhas etimologias preferidas, olha só: houve uma associação entre a imagem de uma menininha (pupilla, o diminutivo de pupa) e o que se via no orifício central da íris, a pupila. Havemos de concordar: isso é muito incrível, palavra que já está no site. Quando eu olho nos olhos da minha amada, lá no fundinho, consigo ver o reflexo de um menininho, nesse caso.
A explicação é antiga e tem testemunha ilustre. Quem olha bem de perto o olho de outra pessoa vê ali uma figurinha minúscula: o próprio reflexo. Os romanos chamaram essa figurinha de pupilla, a bonequinha que mora no olho, e Plínio, o Velho, já comentava no século I que a pupila é capaz de refletir a imagem inteira de uma pessoa. Os gregos fizeram a mesmíssima coisa: kórē, “moça”, também era o nome da pupila.
O português não ficou atrás. A pupila também se chama menina do olho, e quem é muito querido vira a menina dos olhos de alguém: o reflexo que a gente faz questão de guardar. O espanhol diz niña del ojo. De Roma a Atenas, de Lisboa a Madri, olhar alguém nos olhos é encontrar uma criança lá dentro.
E a família da pupa não para por aí. Pupilla e o masculino pupillus também queriam dizer “órfão, menor sob tutela”, a criança aos cuidados de alguém; daí o nosso pupilo, que hoje é também o aluno, o protegido. O francês fez de pupa a sua poupée, “boneca”. E o naturalista Lineu, no século XVIII, chamou de pupa a fase em que o inseto fica parado dentro do casulo, como uma bonequinha enfaixada. Da boneca à borboleta, sem perder a pose.
Então, da próxima vez que alguém disser que você é a menina dos olhos dele, pode acreditar: a etimologia confirma. É só chegar pertinho e conferir.
O sentido hoje
A abertura no centro da íris, por onde a luz entra no olho; a menina do olho. Em outro sentido, é também a menina sob tutela e a aluna, feminino de pupilo.
Da mesma família
- pupilo
- pupa
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Fontes
- GALINDO, C. W. Na ponta da língua: o nosso português da cabeça aos pés. São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535940213/na-ponta-da-lingua.
- HARPER, D. Pupil. Online Etymology Dictionary (do latim pupilla, diminutivo de pupa, “menina, boneca”). Disponível em: https://www.etymonline.com/word/pupil.
- WORD HISTORIES. ‘Pupil’: one’s own reflection in somebody’s eye (com a passagem de Plínio, o Velho, e o grego kórē). Disponível em: https://wordhistories.net/2018/02/01/pupil-origin/.
- PLÍNIO, O VELHO. Naturalis Historia, livro XI.
- REAL ACADEMIA ESPAÑOLA. Diccionario de la lengua española, verbete “niño, ña” (niña: pupila do olho). Disponível em: https://dle.rae.es/niño.