Formulando Palavras

manga

substantivo femininoLatimOrigem certa

Duas palavras numa só grafia: a manga da roupa vem do latim manica, de manus, “mão”; a manga da fruta veio da Índia, das línguas do Malabar. Não é polissemia: é homonímia perfeita.

O caminho

A manga da roupa

  1. manusLatimmão
  2. manicaLatimmanga da túnica; luva; algema
  3. mangaPortuguêsparte da roupa que cobre o braço

A manga da fruta

  1. māṅkāyTâmilfruto da mangueira
  2. māṅṅaMalaialamangafim do séc. XV
  3. mangaPortuguêso fruto da mangueira

Como a palavra se formou

manga (da roupa): do latim manica, de manus, “mão”. manga (a fruta): do malaiala māṅṅa e do tâmil māṅkāy, pelos portugueses na Índia

A história

Imagine a cena: num dia de calor, alguém chupa uma manga e limpa a boca na manga da camisa. Mesma grafia, mesma pronúncia e nenhum parentesco. Manga não é uma palavra com dois sentidos: são duas palavras que, por acaso, ficaram iguais.

E aqui vale uma distinção da morfologia. Quando uma mesma palavra tem vários sentidos aparentados, como o pé da gente, o pé da mesa e o pé de alface, temos polissemia. Não é o caso de manga: a fruta e a parte da roupa não veiculam nenhum sentido próximo. Trata-se de um homônimo perfeito, isto é, de palavras iguais na grafia e na pronúncia, mas de origens diferentes. Meu futuro professor de morfologia vai ficar contente em saber que as minhas leituras de morfologia já estão avançadas, rs.

A manga da camisa é romana. Vem do latim manica, a manga comprida da túnica, que chegava a cobrir a mão: o nome vem de manus, “mão”. Os romanos chamavam de manicae também as luvas e até as algemas, tudo o que se põe na mão, por gosto ou à força. No caminho até o português, o i do meio caiu e o c amoleceu em g: manica virou manga.

A manga da fruta veio de muito mais longe. Quando os portugueses chegaram à costa do Malabar, no sul da Índia, no fim do século XV, encontraram uma fruta que os falantes de malaiala chamavam de māṅṅa e os de tâmil, de māṅkāy, o fruto da mangueira. Os portugueses fizeram dela a nossa manga e levaram a fruta e o nome mundo afora. E aqui vai um recado para você que acha que o inglês só nos deu palavras: a manga fomos nós que demos a eles. O inglês mango saiu do português, e não foi o único presente: a veranda deles é a nossa varanda, o molasses é o nosso melaço e a cobra é a nossa mesmo. Se no microfone foi o português que pediu a palavra ao inglês, na manga quem estendeu a mão foi o inglês. E, por coincidência, a palavra chegou exatamente igual à manga que já estava na roupa.

Ah, e o mangá japonês, dos quadrinhos, nem entra na conta: vem do japonês manga, “desenho despretensioso”, e, em português, ganhou acento e sílaba forte própria, então nem homônimo perfeito ele é. Já as nossas duas mangas seguem vizinhas sem parentesco: dá para arregaçar uma para chupar a outra.

O sentido hoje

1. Parte da roupa que cobre o braço (“camisa de manga comprida”). 2. O fruto da mangueira, de polpa amarela e doce. São duas palavras diferentes, que os dicionários registram em verbetes separados.

Da mesma família

  • manguito
  • manual
  • manusear
  • mangueira

Fontes

  1. ROCHA, L. C. de A. Estruturas morfológicas do português. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
  2. Wiktionary, verbete “manica” em latim. Disponível em: https://en.wiktionary.org/wiki/manica.
  3. HARPER, D. Mango. Online Etymology Dictionary (do português manga, do malaiala e do tâmil). Disponível em: https://www.etymonline.com/word/mango.
  4. Wiktionary, verbete “manga”. Disponível em: https://en.wiktionary.org/wiki/manga.