Como a palavra se formou
melankholía, de mélas (radical melan-), “preto, escuro”, e kholḗ, “bile”: a doença da bile preta
A história
Se a tristeza tivesse cor, os gregos diriam que é preta. Melancolia vem do grego melankholía, que junta mélas, “preto, escuro”, e kholḗ, “bile”: ao pé da letra, “bile preta”. Para eles, a tristeza profunda era mesmo uma doença preta, causada por um líquido escuro que o corpo produzia em excesso. A gente diz que alguém está num dia cinzento; o grego ia direto ao ponto, ou melhor, ao baço, o órgão que guardaria essa bile.
E os gregos tratavam as pessoas pelas suas energias? Quase: não eram energias, eram líquidos. Os médicos da escola de Hipócrates, nos séculos V e IV a.C., ensinavam que o corpo tem quatro humores: o sangue, a fleuma, a bile amarela e a bile negra. Com os quatro em equilíbrio, havia saúde; quando um faltava ou sobrava, vinha a doença. O tratamento tentava devolver a balança ao prumo, com dieta, exercícios, banhos e purgantes para pôr o excesso para fora; mais tarde vieram também as sangrias. Séculos depois, em Roma, o médico grego Galeno transformou os humores em temperamentos: o sanguíneo, o fleumático, o colérico e o melancólico. Cada pessoa teria o seu humor dominante, e o remédio que servia para uma não servia para outra. Nisso, a intuição não estava tão longe: a medicina era sob medida.
Um dos Aforismos de Hipócrates já descreve o quadro: se o medo ou o desânimo duram muito tempo, é melancolia. E a teoria deixou rastros no nosso vocabulário. Humor, em latim, era “líquido”, e é por isso que até hoje a gente acorda de bom ou de mau humor: é o líquido falando. A bile amarela, a kholḗ sozinha, deu a cólera, a raiva de quem anda com bile demais, e o colérico. E o mélas preto continua na melanina, o pigmento escuro da pele.
Com o tempo, a melancolia trocou de roupa. Na Renascença, virou quase charme: o ar pensativo do gênio, do poeta, do artista. No século XX, a medicina deixou a bile de lado e consagrou outro nome, depressão, do latim deprimere, “empurrar para baixo”. Saiu a imagem da cor e entrou a do peso: a tristeza deixou de ser preta e passou a ser funda. A palavra melancolia ficou com os poetas e, na psiquiatria, sobrevive para nomear um tipo de depressão.
A bile preta nunca existiu do jeito que os gregos imaginavam, mas a dor que ela tentava explicar existe, sim. Hoje, a depressão é tratada pela medicina e pela psicologia, sem sangria e sem purgante. Se a tristeza dura muito, vale o conselho de Hipócrates, atualizado: procure ajuda.
O sentido hoje
Tristeza profunda e duradoura, abatimento; também uma tristeza vaga e pensativa, às vezes quase doce (“a melancolia de um domingo à tarde”). Na medicina, o nome deu lugar a depressão, mas sobrevive para descrever um tipo de quadro depressivo.
Da mesma família
- melancólico
- cólera
- colérico
- melanina
- melanoma
- colesterol
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Fontes
- HIPÓCRATES. Aforismos, seção VI, aforismo 23. Tradução inglesa de Francis Adams. Disponível em: https://classics.mit.edu/Hippocrates/aphorisms.6.vi.html.
- MARTINS, L. A. C. P.; SILVA, P. J. C. da; MUTARELLI, S. R. K. A teoria dos temperamentos: do corpus hippocraticum ao século XIX. Memorandum, Belo Horizonte, n. 14, p. 9-24, 2008. Disponível em: https://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a14/martisilmuta01.pdf.
- HARPER, D. Melancholy. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/melancholy.
- McINTOSH, M. Melancholia, loneliness, and depression in the medieval humours. Brewminate, 6 nov. 2023. Disponível em: https://brewminate.com/melancholia-loneliness-and-depression-in-the-medieval-humours/.