Como a palavra se formou
do inglês glamour, alteração escocesa de grammar, “gramática”, que veio do grego grammatikḗ, “a arte das letras”
A história
Palavra sugerida por Ana Rebeka, e que palavra! Glamour tem cara de passarela, de tapete vermelho, de flash de fotógrafo. Mas nasceu num lugar bem menos badalado: a sala de aula. O glamour é parente da gramática.
Tudo começa no grego grámma, “letra”. Daí veio grammatikḗ, a arte das letras, que o latim tomou como grammatica, o francês antigo como gramaire e o inglês como grammar. Na Idade Média, grammatica passou a significar o saber em geral, que era escrito em latim. Quem dominava os livros era visto com respeito e com desconfiança, e a magia e a astrologia pareciam fazer parte do pacote.
No século XVIII, os escoceses alteraram grammar para glamer ou glamour, com um sentido bem mais sedutor: feitiço, encantamento. A palavra aparecia nas baladas escocesas, e o escritor Walter Scott ajudou a torná-la famosa. Lançar um glamour sobre alguém era enfeitiçar a pessoa, fazer com que ela visse as coisas mais bonitas do que eram.
O mais interessante aqui, para mim, é entender como esse gr de gramática formou gl. Grande mistério linguístico. Uma pista é a dissimilação, quando dois sons iguais na mesma palavra se estranham e um deles muda: em grammar há dois erres, e o primeiro pode ter virado l. É o que aconteceu com o latim peregrinus, que em italiano virou pellegrino. No caso do glamour, porém, isso é hipótese: ninguém registrou a troca acontecendo, e o mistério continua.
A partir de meados do século XIX, a palavra foi perdendo a magia de verdade e ficou com o encanto: um fascínio atraente e, muitas vezes, ilusório. Daí para o brilho do cinema e da moda foi um passo. O português trouxe a palavra do inglês, mas com pronúncia afrancesada, e criou os seus derivados, glamoroso e glamorizar. Glamour é um ótimo exemplo de como as línguas conversam entre si: grego, latim, francês, escocês, inglês e português foram passando a palavra de mão em mão, e cada um deixou nela a sua marca.
A família tem ainda um primo esotérico: grimório, o livro de feitiços, que vem do francês grimoire, também uma alteração de grammaire. Quem diria: estudar gramática já foi coisa de feiticeiro. Por aqui, a gramática vira lógica; na história do glamour, ela virou encanto.
O sentido hoje
Encanto sofisticado, charme que deslumbra, sobretudo no mundo da moda, do cinema e do luxo. Dele vêm glamoroso e glamorizar.
Da mesma família
- gramática
- grimório
- glamoroso
- glamorizar
- programa
- telegrama
Fontes
- MERRIAM-WEBSTER. The history of ‘glamour’. Words at Play. Disponível em: https://www.merriam-webster.com/wordplay/the-history-of-glamour.
- OXFORD UNIVERSITY PRESS. Grammar and glamour. OUPblog. Disponível em: https://blog.oup.com/?p=142575.
- Wiktionary, verbete “glamour” em português (consultado em 2 nov. 2026). Disponível em: https://en.wiktionary.org/wiki/glamour.