Como a palavra se formou
do inglês football, de foot, “pé”, + ball, “bola”; no Brasil, primeiro escrito foot-ball, depois aportuguesado
A história
Football is coming home foi e é o lema dos ingleses quando o assunto é campeonato. Infelizmente, isso quase nunca acontece. Tadinhos, ruins demais em ganhar títulos. Ah, o assunto aqui é etimologia; bom, vamos a ela. Já aviso que este texto vai ficar grande. Muita bola pra rolar.
Muitos acreditam que o futebol, tanto o esporte quanto a palavra, teve como berço a atual Inglaterra; estão enganados, em parte. A sua origem é muito polêmica, mas Márcio Trevisan, em seu livro A história do futebol para quem tem pressa, faz um preâmbulo bem interessante. A China, meus amigos, como sempre ela: foi lá que primeiro se jogou “bola”. O historiador Sima Qian, que viveu entre os séculos II e I a.C., já fala do jogo, que se chamava cuju (ou tsu-chu): ao pé da letra, “chutar a bola”, em chinês. Mas, conta a lenda, essa bola não era uma qualquer, e sim a cabeça dos inimigos de batalha. Quem vê o Brasileirão nem suspeita de onde veio toda essa agressão entre os jogadores…
Com o tempo, essas “bolas” foram substituídas, ainda bem, por bolas de couro recheadas com penas de aves e, mais tarde, cheias de ar. Essa mudança de, digamos, recurso serviu para popularizar o esporte China afora: o jogo chegou à Coreia e ao Japão, onde recebeu o nome de kemari. Uns acreditam que foram os maias que deram origem a ele, mas essa história não é tão interessante quanto a dos chineses, então não perderei o meu tempo.
Depois, o jogo chegou à Europa, e os ingleses levaram todo o crédito por terem feito do esporte, outrora tão radical, um exercício mais civilizado e com regras. E não só isso: foi lá que Charles Miller, filho de um escocês imigrante no Brasil, aprendeu a jogar. Ele foi estudar na Inglaterra e, em 1894, voltou com duas bolas na mala e um livro de regras. Com isso, Charles popularizou o esporte e ajudou a montar o time do São Paulo Athletic Club. Não, não é o mais vitorioso, mais tradicional, mais imponente São Paulo (brincadeiras à parte), que só nasceria em 1930. Mas o SPAC de Miller ganhou os três primeiros campeonatos paulistas, de 1902 a 1904, com Miller marcando diversos gols, góis, goles, sei lá, outra palavra curiosa. E, ironia das ironias, foi Miller quem sugeriu o nome do Corinthians. Mas o que isso tem a ver com etimologia? Cartão amarelo pela ansiedade.
Tem tudo a ver. Rememorar o passado é importante para entender como a palavra se formou e o que está envolvido nessa formação; é esse, aliás, o principal pilar de análise deste site. Sem a história do jogo, a história do nome fica pela metade.
Agora sim, a bola no pé. Futebol é a adaptação do inglês football, que junta foot, “pé”, e ball, “bola”: o jogo de bola com o pé. A palavra inglesa é antiga e já aparece no século XV, em leis da Escócia e da Inglaterra que tentavam proibir o jogo. Era violento, barulhento e, segundo as autoridades, tirava os homens do treino de arco e flecha. Os reis bem que tentaram, mas a bola rolou mesmo assim.
Quando os ingleses organizaram as regras, em 1863, com a fundação da Football Association, o jogo ganhou nome completo: association football, o futebol da associação, para não ser confundido com o rugby football. Os estudantes de Oxford, que adoravam abreviar tudo, cortaram association para assoc e grudaram um -er: nasceu o soccer, como os americanos chamam o esporte até hoje. O football deles, aliás, é aquele em que quase ninguém usa o pé. Cá entre nós, só podia ter saído de Oxford: soccer tem cara de futebol gourmetizado, de patrício, jogado de camisa polo e com taça de vinho na mão. Soccer é o escambau: aqui é futebol!
No Brasil, a palavra chegou junto com as bolas de Miller e, no começo, era escrita à inglesa: foot-ball, com hífen e tudo. Teve gente que viu ali uma invasão estrangeira e propôs palavras “nacionais”, como ludopédio. Não pegou: o povo preferiu aportuguesar o inglês do jeito que se fala, e foot-ball virou futebol. E o jogo trouxe uma escalação inteira de palavras inglesas, quase todas já vestindo a camisa do português: o gol (goal, “meta, alvo”), o chute (shoot), o time (team), o pênalti (penalty), o craque (crack, “de primeira”) e o beque (back). O córner até tentou, mas perdeu a vaga para o nosso escanteio.
E os gols, góis, goles? O plural consagrado é gols. Góis aparece na fala, por analogia com anzol e anzóis, e goles é o plural de gole, coisa que se dá no copo, não na rede. Em Portugal, o problema nem existe: lá o goal virou golo, e o plural é golos.
No fim das contas, o futebol e a palavra fizeram caminhos opostos: o jogo nasceu longe da Inglaterra e foi organizado lá; o nome nasceu lá e virou nosso. Football is coming home? A palavra, pelo menos, já fez casa por aqui.
O sentido hoje
Esporte disputado por dois times de onze jogadores, que tentam fazer a bola entrar no gol adversário sem usar as mãos (só o goleiro pode). Por extensão, a partida e o próprio jeito de jogar (“aquele time joga um futebol bonito”).
Mito e fato
O que se diz
O futebol nasceu na Inglaterra.
O que as fontes dizem
A Inglaterra deu ao futebol o nome e as regras modernas, em 1863. Mas jogos de chutar bola já existiam muito antes, como o cuju chinês, registrado há mais de dois mil anos.
Da mesma família
- futebolista
- futebolístico
- futsal
- gol
- chute
- time
- craque
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Fontes
- TREVISAN, M. A história do futebol para quem tem pressa. Rio de Janeiro: Valentina, 2019.
- HARPER, D. Football. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/football.
- HARPER, D. Soccer. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/soccer.
- Wikipedia, verbete “Cuju” (consultado em 4 nov. 2026). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Cuju.
- Wikipedia, verbete “Charles William Miller” (consultado em 4 nov. 2026). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_William_Miller.